Histórias

TRADIÇÃO E TECNOLOGIA SE COMBINAM NA PRODUÇÃO DO CAFÉ ORFEU

Nas fazendas Sertãozinho, saberes do campo e máquinas antigas convivem com equipamentos de última geração

Texto Flávia G Pinho | Imagens Caio Ferrari

Quando adquiriram a primeira propriedade na Serra da Mantiqueira, em 1995, Roberto Irineu Marinho,
presidente do conselho do Grupo Globo, e sua mulher, Karin Marinho, deram início a um ambicioso projeto – 24 anos depois, as Fazendas Sertãozinho compõem um complexo de cinco propriedades a até 1570 metros de
altitude, cujos cafés acumulam 26 premiações Cup of Excellence e alcançam notas acima de 80 pontos pela SCAA (Specialty Coffee Association of America).


As duas fazendas do Sul de Minas Gerais, somadas às três da Mogiana Paulista, ocupam uma região que tem
tradição na cafeicultura – e já vieram cobertas de pés de café. Coube ao agrônomo José Renato Gonçalves Dias, ao longo de ¼ de século, renovar os antigos cafezais e implementar técnicas que eram novidade por ali, como a irrigação. Às variedades que já existiam, como Catuaí e Mundo Novo, foram adicionadas dezenas de outras. No total, mais de 30 já estão em plena produção, enquanto outras sequer chegaram à primeira colheita – é o caso do geisha, originário da Etiópia, que terá a primeira safra em 2021. Cafés orgânicos também foram testados pela primeira vez, em um processo que consumiu cinco anos de investimento. O resultado superou as expectativas: um microlote de Arara 100% orgânico da safra 2018/2019, plantado no Sul de Minas, foi premiado pela Cup of Excellence.

Novas tecnologias foram implementadas nas etapas de seleção, secagem e beneficiamento, chegando até a ponta da cadeia produtiva. É a própria Orfeu, por exemplo, que embala seus cafés em cápsulas biodegradáveis.

Mas surpreende ver como esse novo aparato tecnológico ainda convive – e bem – com antigas tradições. Tome-se como exemplo o escritório central da Sertãozinho. Logo na entrada, vê-se um grande monitor conectado ao sistema de automação Solinftec. Na tela, a equipe acompanha o deslocamento dos tratores e mede a eficiência de cada funcionário que está no campo – se um deles parar por 1 minuto e meio sem explicar o motivo, soa um alarme.

Já na sala ao lado, a estrela é um quadro gigante, à moda antiga, que mapeia em detalhes as lavouras das cinco fazendas: a tabela informa o nome de cada talhão, que espécie foi plantada ali, o ano de plantio, o espaçamento, a altitude do terreno, a face solar e o sistema de cultivo.

Velho e novo também convivem no galpão onde os grãos são selecionados. Há vários equipamentos a laser, mas a antiga máquina de 1973, toda de madeira, continua em plena operação e virou o xodó da equipe.

Na secagem, José Renato também não abre mão de manter os velhos terreiros. A tarefa de espalhar os grãos pela manhã e juntá- los todos à tardinha, durante semanas, dá um trabalhão e leva muito tempo, o que é inviável para uma empresa que já colhe 30 mil sacas de 60 quilos por safra. As novas secadoras a ar estão lá, trabalhando a pleno vapor – mas os terreiros continuam cobertos de grãos, no mesmo ritmo do vaivém.


CEO da Orfeu, Amanda Capucho explica que o equilíbrio entre tecnologia e tradição também ajuda a
compor a equipe de funcionários. “As startups de mapeamento meteorológico são ótimas, mas o primeiro a
acertar o tempo certo de cada florada é sempre o Seu Nicácio”, admite. Aos 71 anos, Nicácio Quintilhano dos Reis é hoje o encarregado da lavoura.

A bordo de um jipe, ele passa o dia percorrendo os corredores entre os milhares de pés de café, que conhece como a palma da mão. “Essa inteligência rural intuitiva é muito importante para nós”,diz Amanda.  A receita parece estar dando certo. Nos últimos três anos, quando a Orfeu adotou uma estratégia de marketing agressiva e passou a investir pesado no desenvolvimento de novos produtos e na distribuição, a empresa cresceu 50% ao ano. O faturamento, de 2015 para cá, aumentou 10 vezes – e a meta, diz Amanda, é chegar à produção de 40 mil sacas até 2021.

No vídeo a seguir, Nivaldo Lucio Figueiredo, classificador e um dos funcionários mais antigos da empresa, conta detalhes saborosos da produção – e apresenta Seu Nicácio, patrimônio vivo da Orfeu.

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