Histórias

REGIÃO DE SOLO VULCÂNICO DESPONTA COMO PÓLO PRODUTOR DE ÓTIMOS AZEITES

Centenas de pequenos produtores, de cidades paulistas e mineiras, estão apostando na nova cultura

Texto Flávia G Pinho | Imagens Caio Ferrari

 

Basta observar a foto bem do alto para que a imagem fique mais clara: uma formação circular, que abrange 12 municípios de São Paulo e Minas Gerais, coincide com o contorno da cratera de um vulcão, extinto há cerca de 80 milhões de anos. E não se trata de suposição – o Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP) comprova a tese e explica que o solo dali realmente apresenta uma composição rara de minerais.

É nesse pedaço de chão, área tradicionalmente dedicada ao cultivo do café, que a olivocultura está ganhando expressão. Espalhados por Águas da Prata, Caconde, Divinolândia e São Sebastião da Grama, do lado paulista, e por Andradas, Bandeira do Sul, Botelhos, Cabo Verde, Poços de Caldas, Caldas, Campestre e Ibitiúra de Minas, na banda mineira, pequenos produtores têm apostado na altitude, na farta insolação e na amplitude térmica para plantar oliveiras. Os resultados, até agora, têm sido animadores.

Entre os pioneiros está o casal Mário e Carla Borriello, de Andradas (MG), que plantou as primeiras árvores na fazenda Três Barras Castanhal em 2008. Os dois começaram devagar, meio desconfiados. Estimulados pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) de Maria da Fé, salpicaram mudas das variedades arbequina e grappolo por uma área de apenas 1 hectare.

“Meu vizinho tinha plantado com espaçamento 2 x 2, mas já  recebemos recomendação de adotar o 6 x 5”, conta Mário. Deu certo. Como as primeiras colheitas foram boas, seis anos depois eles investiram em um pequeno lagar importado da Itália, com capacidade para processar 160 quilos de azeitonas por hora. E o azeite Borriello ganhou mercado.

Hoje, o casal tem 18 hectares plantados – são 6500 plantas das variedades arbequina, arbosana, picual, frantoio e koroneiki. Em 2020, a colheita rendeu 12 toneladas de azeitonas. As garrafas de 250 e 500 mililitros são distribuídas para empórios e restaurantes paulistanos, como Casa Santa Luzia, Empório Santa Maria, Tuju, Evvai, Carlota, Neto (Four Seasons), Charco, Piú, Piccolo e Cepa. A novidade do ano é a embalagem bag in box de 5 litros – na caixinha longa-vida com torneira, vendida só por encomenda, o azeite é mantido sem contato com o oxigênio.


No lagar, instalado dentro de uma casinha verde na entrada da fazenda, Mário e Carla não processam apenas as próprias azeitonas. Quando o Cozinha.Doc esteve lá em fevereiro de 2020, para registrar a colheita e a extração, a máquina moía os frutos da Fazenda São Benedito, em Bonsucesso de Itararé, distante 468 quilômetros. Nos caixotes, as azeitonas exibiam coloração bem mais verde do que as colhidas pelos Borriello. “Embora os produtores brasileiros estejam apostando nos frutos bem verdes, resolvi deixar as minhas amadurecerem mais um pouco este ano. Além de aumentar o rendimento, estou conseguindo aromas muito interessantes”, conta Mário.

A 50 quilômetros dali, já nos limites de São Sebastião da Grama (SP), Moacir Carvalho Dias e o pai, Mauricio, começaram a plantar bem depois dos Borriello. Adquirida em 2014, a Fazenda Irarema, de 419 hectares, era coberta de pés de café e só começou a mudar de feições a partir de 2016. Hoje, 80 hectares já passaram pela conversão e receberam 22 mil pés de oliveiras, alguns plantados a 1450 metros de altitude. O objetivo de Moacir é dobrar a lavoura até 2030, para chegar a uma produção anual de 63 mil litros de azeite. “Testamos sete variedades. Por enquanto, as de maior potencial são a arbequina, a grappolo e a koroneiki”, conta.

O lagar da Irarema, com capacidade para processar 1800 quilos de azeitonas por hora, foi importado da Itália e dimensionado para atender não só à produção própria. É um dos maiores já instalados no Brasil. “Meu pai quis investir em um equipamento que estimulasse a cultura da oliveira na região. E conseguiu. Mais de 100 sitiantes ao nosso redor decidiram plantar por nossa causa.” Parte deles, além de extrair o azeite na Irarema, contrata também o serviço de envase e rotulagem. E Moacir não os vê como concorrentes, tanto que está criando uma segunda marca, a Serras Altas, cujo azeite será produzido em formato de cooperativa.

Boa parte da produção do azeite Irarema é arrematada lá mesmo, na fazenda. A família Dias investiu pesado no turismo e mantém as porteiras abertas aos visitantes nos fins de semana e feriados. A entrada é grátis, mas o tour é pago e inclui passeio pelo olival, em um caminhão aberto adaptado, e visita ao lagar, que só entra em funcionamento entre fevereiro e março, época da colheita. Ao final, acontece a degustação guiada na loja, um espaço bem montado que fica a cargo da irmã de Moacir, Gabriela Dias.

Além de azeites, as prateleiras exibem outros produtos da região, como queijos, cachaças, vinhos e doces. Aos domingos, é servido um brunch. “Metade do nossob faturamento já vem do turismo”, comemora Moacir, que recebeu mais de 1000 visitantes e vendeu 728 garrafas de azeite só durante o carnaval de 2020.


Embora a região esteja colada aos contrafortes da Serra da Mantiqueira, os produtores desses 12 municípios querem se diferenciar dos demais em função do solo vulcânico. Criaram a Associação dos Olivocultores das Serras Vulcânicas, em 2018, e pretendem obter o registro de Indicação Geográfica (IG) no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Como o processo promete demorar, os Borriello não perderam tempo e já estampam no rótulo as informações sobre esse terroir tão particular.
Quer saber mais sobre os olivais de solo vulcânico e os produtores dos azeites Borriello e Irarema? Assista ao vídeo exclusivo do Cozinha.Doc.

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