Histórias

PRODUTOR FAMILIAR CULTIVA UM DOS CAFÉS MAIS PREMIADOS DE SÃO PAULO

Conheça os Borges, de Divinolândia, uma família simples que conquistou fama com seus grãos especiais


Texto Flávia G.Pinho | Fotos Caio Ferrari

A lida no Sítio Pirapitinga começa antes das 6h. Depois de coar o primeiro cafezinho do dia, José Clóvis Borges, 53 anos, trata de ordenhar as nove vaquinhas – os 50 litros de leite que ele consegue por dia (no verão a quantidade dobra) viram os 12 queijos que a mulher dele, Regiana, vai vender no mercado de Divinolândia.


Depois, é hora de cuidar da lavoura de café. Uma plantação bonita de se ver, com 23 mil pés, que sobe pela encosta sem que a gente consiga enxergar o outro lado. Durante a colheita, que só acontece a partir de julho por causa do frio lascado que faz naquelas alturas, os grãos de Icatu, Bourbon, Mundo Novo e Catuaí recebem tratamento vip. Clóvis faz a colheita à mão na companhia do filho mais moço, Douglas Henrique, de 21 anos, e mais três funcionários. Os dois ficam junto o tempo todo – o olho dos donos faz diferença no andamento do trabalho. Nos cinco terreiros de cimento espalhados pela propriedade, os cafés separados por variedade são virados sistematicamente ao longo do dia para que tomem sol por igual. No meio da tarde, pai e filho juntam os grãos em montinhos e os cobrem com lonas, proteção eficiente contra o sereno. Quando estão no ponto, vão para as sacas, que Clóvis costura uma a uma. E começa tudo de novo no dia seguinte.

O esmero no manejo dos grãos é novidade nos domínios dos Borges. Quando o pai de Clóvis começou a plantar café, era tudo bem diferente – os grãos já tinham qualidade, mas ela praticamente se perdia durante a colheita e a secagem, feitas naquela época de forma puramente intuitiva. Cafés de diferentes lotes e estágios de maturação, com características distintas, eram colhidos todos juntos. Assim eram postos para secar – nas palavras de Clóvis, o café ia “grosso” para o terreiro. E ninguém sabia que era preciso virar os grãos constantemente, para evitar que acumulassem umidade e acabassem fermentando. Ao final do processo, restava um produto de baixo valor, vendido como commodity pelo preço que o mercado ditava.

 


Não é que faltasse amor pela cultura cafeeira, pelo contrário. Regiana, ela também filha de cafeicultor, lembra que pegava na enxada toda tarde, na volta da escola. “Meu pai ensinava que era preciso amar os pezinhos de café, porque deles vinha o nosso sustento. Mas a gente nunca soube que existia variedade diferente de café”, recorda.


O rumo dessa história começou a mudar em 2011, quando o casal entrou para a Associação dos Produtores Rurais de Divinolândia e Regiana, para a Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA Brasil). Em contato com outros cafeicultores, os dois foram conhecendo e implantando novas técnicas de manejo no Sítio Pirapitinga. O resultado não tardou a aparecer – já em 2012, a associação inscreveu Clóvis no Concurso Estadual de Qualidade do Café de São Paulo. Ele chegou desconfiado, como todo estreante, e saiu com um prêmio nas mãos: o lote venceu na categoria Café Natural com nota 8,75.


De lá para cá, os Borges tomaram gosto pelos concursos –pudera, a família ganha um atrás do outro. Emoldurados, os certificados ficam enfileirados no alto do móvel da sala de jantar, onde as visitas podem admirá-los enquanto tomam cafezinho coado com o queijo da Regiana. O café dos Borges tem ido longe. No finzinho de 2017, um amostra dos seus grãos de Icatu Vermelho foram parar nasmãos de Richard Kumagai, gerente de produto da Suplicy.

De cara, a rede arrematou três sacas – o café foi escolhido para inaugurar a cafeteria no topo do Farol Santander, no Centro de São Paulo. “Como se trata de um prédio histórico e muito alto, queria um café paulista de altitude”, resume Richard, que logo a seguir reforçou o estoque com mais 17 sacas. E ele nem sabia que aquele mesmo café ficaria em terceiro lugar no Concurso Estadual, com nota 8,68.

Hoje, Clóvis e Douglas são famosos no meio dos cafeicultores. E o sobrenome Borges virou garantia de café bom, não importa a variedade do grão – a Suplicy também comprou sete sacas do Bourbon Vermelho, que se revelou outro primor na xícara.

Confira entrevista exclusiva de Clóvis e Douglas Borges e conheça um pouco mais sobre a história de seus cafés no vídeo do Cozinha.Doc no YouTube.

 

 

 

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