Histórias

OS ÚLTIMOS CAIÇARAS

Na terceira geração, colônia de pescadores do litoral paulista ainda conserva tradições

Texto Flávia G. Pinho | Fotos Caio Ferrari

Todo dia a rotina é a mesma. Três vezes por dia, os pescadores da família Silvestre saem de casa, atravessam a rua estreita, põem o barco no mar e remam até a rede, afixada a 300 metros da praia de Toque-Toque Pequeno. O ritual é lindo. Com muito cuidado para não ferir os peixes ainda vivos, o grupo levanta a rede aos poucos até jogá-los dentro da canoa. No trajeto de volta, peixes-espada, sororocas, carapaus e olhos-de-cão vêm se debatendo até chegar à areia, onde são limpos e encaminhados à peixaria, na mesma vila onde todos moram. Impossível comprar um peixe mais fresco. “Meu avô nasceu aqui, passou o que sabia para meu pai e eu aprendi com ele. Sempre vivemos da pesca artesanal. Aos 12 anos, eu já puxava rede sozinho”, conta Márcio Silvestre, a terceira geração a dominar a arte da pesca de cerco.

Trata-se de uma técnica 100% sustentável – como os peixes são capturados vivos, espécies ameaçadas de extinção ou que não interessem aos pescadores voltam ainda saudáveis ao mar. “Às vezes vem até tartaruga na rede. Tem uma que já me conhece e vem comer na minha mão”, Márcio se gaba, jurando que não é história de pescador.


Houve um tempo, ele se lembra, que os barcos dos Silvestre não eram os únicos naquele pedaço de mar. Mas os terrenos diante da praia, valorizadíssimos, foram sendo vendidos a peso de ouro – e a colônia de pescadores foi minguando. Só eles ficaram. A peixaria, bem simples, tem clientela cativa. Como os horários de pesca são fixos, veranistas que têm casa nas praias vizinhas costumam bater ponto e esperar pela volta dos barcos. “Esses gostam de comprar o peixe ainda vivo”, diz Márcio. O preço varia conforme a espécie. Há as bem baratinhas, como a savelha, a guaivira, a palombeta e o gordinho, que saem por R$ 1 o quilo (você não leu errado, R$ 1 o quilo). Mas tem carapau a R$ 5, sororoca a R$ 15 e cavala a R$ 30. O fim do verão é temporada de fartura. “Em março de 2017, conseguimos pescar mais de 1 tonelada por semana. No inverno, em compensação, não pescamos nem 100 quilos por semana.”

 O chef Eudes Assis, proprietário do restaurante Taioba, em Camburi, é um dos clientes mais assíduos de Márcio – e de outros pescadores artesanais que atuam nas praias dos arredores. “Muitos foram meus amigos de infância. Eles tiram fotos dos peixes que acabaram de pescar e me mandam na hora. Escolho pelo Whats App”, revela. A parceria, diz Eudes, dá trabalho – peixe fresco tem que ser limpo, descamado e porcionado dentro do restaurante.

Muitas vezes, é preciso até buscá-los na praia. “Por isso vemos tanto restaurante preferindo trazer peixe do Ceagesp, sem saber a procedência, ou comprar congelado”, alfineta. Impedir que a pesca artesanal seja extinta, diz o chef, é a bandeira do Taioba. “Posso até faturar pedidos de cerveja e de vinho, mas com pescador eu não pechincho. E sempre pago à vista.” Aos chefs que alegam não trabalhar com peixes desconhecidos porque a clientela rejeita, Eudes manda um recado: com muita conversa e comida boa, é possível mudar até os hábitos mais arraigados “No começo, logo que abri o restaurante, um ou outro cliente pedia linguado, robalo ou salmão. Mas eu ia à mesa, explicava que essas espécies não são do nosso mar e nunca chegariam frescas até aqui. Aos poucos, eles foram entendendo que uma sororoca fresca, pescada no dia, é muito melhor do que um robalo congelado.”

Outra técnica que Márcio e Eudes lutam para preservar é a do peixe salgado e seco no varal. “Quando eu era criança, não tinha luz elétrica onde minha família morava e esse era o jeito de conservar os pescados. Pena que os caiçaras antigos não passaram esse saber para os jovens”, conta Eudes.

 No Taioba, porém, sempre tem peixe seco – a mãe do chef se encarrega da produção, exatamente como era feita no passado. A carne, já desfiada, vira bolinho servido com chutney de banana, entre outras receitas. Nos quintais dos Silvestre, os peixes espalmados também estão sempre pendentes nos varais. “É um costume que está se acabando, pouca gente sabe fazer”, Márcio lamenta. “A gente é os últimos dos caiçaras.”

 
Quer ver como é feita a pesca de cerco? Acesse o vídeo do Cozinha.Doc no YouTube.
 

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