Histórias

MEL NO PLURAL

Em Atibaia, a Mbee produz diferentes tipos de meles de abelhas híbridas e nativas

Texto Flávia G. Pinho | Fotos Caio Ferrari

Faz tempo que mel deixou de ser uma coisa só, variando apenas a florada. Na fazenda Itaicá, em Atibaia (SP), o casal Eugênio e Márcia Basile prova que mel tem identidade e muda conforme o solo, a vegetação, o clima e a época do ano – em suma, que tem terroir. À frente da Mbee, eles cultivam abelhas da espécie Apis Mellifera, aquela comum, listrada de preto e amarelo, e também abelhas nativas brasileiras, que não têm ferrão e dão origem a uma infinidade de meles de grande potencial gastronômico.

Zangadas que só, as Apis Mellifera vivem em caixas espalhadas pela propriedade e sete fazendas vizinhas. alimento, encontram a vegetação típica da Serra da Mantiqueira e mais um tanto de plantações feitas especialmente para elas – as chamadas saladas. São pequenos campos de girassol, milho e eucalipto, que garantem oferta de pólen e néctar o ano todo. “Elas precisam viver com maior diversidade de alimentos possível”, diz Márcia.

Por ano, o casal esvazia as caixas ao menos duas vezes – as colheitas são realizadas nos meses de floradas mais fartas, geralmente janeiro e maio. “Tiramos o mel dos favos, filtramos e envazamos, apenas isso”, conta Eugênio. Meles de Apis Mellifera de outros pequenos produtores também recebem o rótulo Mbee. A linha Mel de Terroir, com quatro potinhos de 40 gramas cada um, é vendida a R$61 e inclui séries limitadas da Serra do Espírito Santo; do sertão da Bahia; e das mineiras Monte Alegre e Vale do Jequitinhonha. “É fácil notar a enorme diferença de cores, aromas e sabores”, garante o produtor.

Nada se compara, porém, à diversidade oferecida pelas abelhas nativas. Existem cerca de 300 espécies – e cada uma produz um mel de personalidade única. “Os portugueses trouxeram a cultura da abelha híbrida, misto da portuguesa com a africana, e o hábito de usar o mel das nativas praticamente sumiu”, explica Eugênio. Um fator pesou na escolha: a produtividade. Uma caixa de abelhas jataí não produz mais do que 300 gramas de mel por ano. O volume, de tão pequeno, é retirado dos favos com seringa – na loja online da Mbee, o potinho de 40 gramas sai por R$ 39,60.

A Fazenda Itaicá abriga cinco espécies de abelhas nativas: jataí, mandaçaia, jataí-da-terra, borá e mandaguari. “Elas precisam de pólen e néctar da mesma forma. A diferença é a arquitetura das caixas, bem menores”, diz Eugênio. Mas o meliponário existe apenas para estudos – os meles comercializados com o rótulo Mbee são adquiridos de 10 pequenos produtores de diferentes estados. Apesar de raros, eles têm conquistado cada vez mais espaço nos restaurantes. E não só nos doces. Como têm pouca concentração de açúcar e alto teor de água, esses meles fermentam – tanto que devem ser armazenados sob refrigeração. Resultam em produtos mais líquidos e ácidos, que fazem bonito em receitas salgadas e até drinques.

O chef Ivan Ralston, proprietário do restaurante Tuju, em São Paulo, usa o mel de uruçu-amarela na finalização do cannoli assado na brasa e do mil-folhas de abobrinha. O que falta agora é incentivo para a comercialização do mel de abelhas nativas. Em outubro de 2017, o estado de São Paulo saiu na dianteira com a Resolução SAA – 52, que regulamenta a produção. Mas falta muito para que essa riqueza gastronômica seja fartamente difundida entre os brasileiros, prevê Eugênio Basile. “A Mbee quer ser a primeira do estado a obter o certificado, mas já se passaram cinco meses e ainda não conseguimos encontrar um laboratório capacitado para fazer a análise dos meles”, reclama. Ainda assim, ele segue firme na briga – e por várias razões. “Nossas matas precisam disso para sobreviver. Não há polinização de uma espécie só de abelhas, o meio ambiente depende da diversidade.”

Para fazer uma visita virtual à criação de abelhas da Mbee, acesse o vídeo do Cozinha.Doc no YouTube.

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