Histórias

ESTREANTE NO MERCADO DE AZEITES, NELIO WEISS CONTA SEUS ERROS E ACERTOS COMO OLIVOCULTOR

Lançado há pouco mais de 1 ano, azeite Olibi é uma das marcas que vêm se destacando na Serra da Mantiqueira

Texto Flávia G.Pinho | Fotos Caio Ferrari

Famosa pelas lendas de assombrações e discos voadores, a cidade de Aiuruoca, na porção mineira da Serra da Mantiqueira, mudou de paisagem há alguns anos. Conforme a gente vai vencendo as estradinhas estreitas de terra, o que mais se vê é oliveira – as folhas prateadas refletem a luz do sol e produzem um efeito bem bonito. As propriedades ali costumam ser pequenas, com terrenos bastante acidentados, e muitas delas ainda têm árvores baixinhas que sequer estão produzindo azeitonas, já que é preciso esperar ao menos três anos pela primeira colheita. Mas vários produtores já estão colhendo em escala comercial e fabricando azeites que surpreendem pela qualidade.

Economista de formação, Nélio Weiss é um deles. Dono de uma propriedade de 110 hectares a 10 quilômetros do centro de Aiuruoca, ele plantou os primeiros 2 mil pés de azeitonas em dezembro de 2011. A maior parte, cerca de 80%, era da variedade arbequina, que impera pelos olivais da Mantiqueria – demais pés eram de ascolanas, arbosanas e koroneikes. Ano a ano, Nélio foi aumentando o olival e arriscando novas variedades, até chegar aos atuais 6 mil pés. Hoje, são oito os tipos produzindo: também tem grappolo, coratina, maria da fé e a espanhola negroa.

Em 2017, o empresário colocou no mercado os primeiros vidros do azeite com a sua marca, a Olibi. A safra, como costumam ser as primeiras colheitas, foi acanhada e não rendeu mais do que 700 litros. Mas a produção aumenta todo ano – foram 1800 litros de azeite em 2018 e 2200 em 2019. Cerca de 40% dos vidros de 250 ml são vendidos, a R$ 45, aos turistas que visitam a fazenda para conhecer a plantação e participar da degustação. O restante do lote, Nélio vende pelo site da marca (olibi.com.br) ou na loja própria que mantém no centro de Aiuruoca. Somente uma pequena parte vai para empórios de outras cidades, como o Rua do Alecrim (ruadoalecrim.com.br), em São Paulo.

Tudo na fazenda acontece assim, em pequena escala. É só durante o período da colheita, que acontece em fevereiro, que a propriedade recebe funcionários temporários. Este ano, bastaram seis, arregimentados entre a população local. Ao longo de quatro semanas, das 7h da manhã ao comecinho da tarde, eles agitaram as árvores com ajuda de derriçadeiras e cataram os frutos que caíram sobre as telas no chão. Com as azeitonas já nas caixas, Nélio precisa correr para o lagar de um vizinho, onde espreme os frutos, filtra e engarrafa seu azeite.

A qualidade do produto depende diretamente da velocidade que obtém nessa etapa. Se as azeitonas são colhidas e demoram a chegar ao lagar, vão oxidando, perdendo aromas e incorporando defeitos. “Na Olibi, elas são processadas impreterivelmente no mesmo dia”, ele garante. Ter um lagar próprio está nos planos, mas ainda sem prazo definido – a safra de 2019, que não foi lá essas coisas, fez com que Nélio adiasse o investimento, que chega à casa dos milhões de reais. “Este ano, a colheita foi ruim em toda a Mantiqueira. O clima não ajudou em nada: não fez frio suficiente e choveu na hora errada. O projeto do lagar vai continuar na lista de espera.”

Produzir azeite na Serra da Mantiqueira, diz Nélio, é mesmo uma aventura – e das boas. Faltam estudos científicos que pautem o trabalho dos olivocultores, porque toda a literatura existente tem como base o cultivo na região mediterrânea, ao nível do mar. “Na Europa, o azeite considerado de altitude é extraído a 300 metros, enquanto a gente está a 1300. Estamos formando conhecimento de forma empírica, na base do ensaio e erro. As coisas vão acontecendo e vamos fazendo registros, reagindo às demandas dos pomares.” Mas Nélio está longe de se acomodar – assinou convênio com o curso de mestrado em biologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), para que profissionais da área estudem as características da região e adaptem o conhecimento sobre olivocultura à realidade da serra.

A elaboração dos azeites também recebe consultoria do especialista Paulo Freitas, da azeiteonline.com.br. Duas linhas de produtos saem do lagar: as marcas Olibi, dirigida ao mercado premium, e Terras de Aiuru, até 40% mais barata, vendida para restaurantes locais. Em ambos os casos, Nélio prefere compor blends a produzir monovarietais – alega que, dessa forma, tem mais liberdade para aproveitar as culturas que se desenvolveram bem em cada safra.

A diversificação tem sido um fator decisivo para o crescimento da marca. Além das variedades para azeites, Nélio também cultiva a ascolana, cujos frutos maiores e mais gorduchos são destinados exclusivamente para conservas. “Muitos produtores aqui da região têm investido somente na arbequina, mas considero um erro. É uma azeitona que dá um azeite bom, mas instável e de vida útil curta. Sem contar que olivais de uma variedade só têm problemas com a polinização.” Diversificação também é a tônica na linha de produtos: com a consultoria de Paulo Freitas, Nélio lançou dois produtos inovadores, a azeitona solúvel em pó e o azeite em pó temperado com orégano, indicados para finalização de pratos e até para o preparo de bebidas.

Franco e direto, Nélio fala sem reservas sobre o que já aprendeu em oito anos de olivocultura. No vídeo a seguir, em entrevista exclusiva ao Cozinha.Doc, ele compartilha lições preciosas para quem planeja realizar o sonho do azeite próprio.

 

 

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