Histórias

ENTRE CAUSOS E ASSOMBRAÇÕES, CASAL PRODUZ UMA DAS MELHORES CACHAÇAS DO PAÍS

Vale a pena conhecer as curiosas histórias por trás da Tiê, produzida na mineira Aiuruoca

 

Texto Flávia G Pinho | Imagens Caio Ferrari

 

Na roça, comprar uma propriedade de porteira fechada significa arrematar a terra com tudo o que ela tem dentro, da casa aos animais. Mas foi diferente com Arnaldo Ramoska e Cris Amin. Quando o casal adquiriu a Fazenda Guapiara, em 2003, em sociedade com o amigo Antonio Carlos Castellani, levou junto um funcionário que acabou mudando o destino de todo mundo por ali. Nascido e criado dentro dos limites da fazenda, Otacílio José da Silva morava com a mulher, Helenice, e o filho,Tobias. Trabalhava como caseiro, mas ficou sem emprego quando o antigo patrão decidiu pôr as terras à venda. Para sobreviver, o jeito que ele deu foi usar a cana, antes destinada à alimentação das vacas, para produzir cachaça. Quando conheceram Otacílio e provaram a branquinha que ele produzia, os novos proprietários não tiveram dúvidas – selaram um novo destino para a Guapiara e criaram a Cachaça Tiê.

Tobias (à esq.) e Otacílio

Antônio Carlos (à esq.) e Arnaldo

Desde 2015, ano oficial do lançamento, o trio aprimorou um bocado a produção. O alambique de cobre
onde Otacílio trabalhava continua lá, mas ganhou a companhia de outros três. A cana, plantada em 8 hectares, é cortada com facão por um motivo especial. “À mão, é mais fácil não cortar rente, para que os pés possam rebrotar na próxima safra”, explica Arnaldo. Horas depois, a cana já passou pela moenda e virou garapa – começa então o processo de fermentação, que segue a receita caipira. “Usamos fermento feito com a própria garapa, milho, arroz e leveduras da região”, conta. Por fim, inicia-se a alambicagem propriamente dita.

Toda a operação, da moagem ao engarrafamento, fica a cargo do próprio Otacílio e de seu filho – por ano, a Tiê produz 30 mil litros de cachaça. Cerca de 10% passam 18 meses na sala de envelhecimento, onde repousam em contato com carvalho europeu ou americano, amburana, bálsamo ou jequitibá. Uma parte vira a Canelinha, rótulo mais recente da marca, infusionada com lascas de canela. O capricho é tanto, em todas as etapas, que a Tiê vem acumulando medalhas em premiações internacionais.

Conhecer a produção é legal, e mais divertido ainda é prosear com o povo de Aiuruoca. A cidade está em plena Serra da Mantiqueira, um paraíso natural onde se enxerga verde por todos os lados. Mas ninguém ali sofre de tédio – em cada esquina, escuta-se uma lenda sobre objetos voadores não identificados. O Pico do Papagaio, dizem, é um verdadeiro ímã para naves espaciais e muita gente jura,de pé junto, que já viu ETs bem de pertinho. Quem contou essa história para o Cozinha.Doc foi dona Rita de Cássia Braga, a Tia Rita, a mais famosa rezadeira de Aiuruoca.

Também se ouve muita história de assombração – e boa parte delas tem como cenário a própria Guapiara. Fundada em 1716, a fazenda sempre pertenceu à família de Seu Zé Domingos, que nasceu e morreu ali, aos 103 anos. Quando foi comprada pelos donos atuais, mantinha o casarão original de pau-a-pique, que foi restaurado. Quem dorme em um dos sete quartos jura que, de madrugada, é possível escutar os falecidos moradores caminhando pelo piso de madeira. No passado, a fazenda foi tão importante que chegou a ter uma espécie de minicentro, onde ainda ficam a igreja, o cemitério, a casa paroquial e um pequeno boteco. É lá que os moradores das redondezas terminam as peladas de domingo comendo pastel e bebendo cachaça. Tudo acontece ao lado dos túmulos e, claro, não faltam histórias de arrepiar, como essa que o Otacílio contou pra gente.

Até 2020, Arnaldo e Cris planejam inaugurar um espaço de degustação com lojinha, onde vão receber
visitantes com cachaça, comida do fogão a lenha e boa prosa. “Queremos trazer as pessoas para uma vivência rural no ambiente de roça. Elas vão poder até ajudar efetivamente na produção”, adianta Arnaldo. De brinde, vai ter contação dos causos de Aiuruoca. Como degustação, a gente exibe agora a entrevista do Otacílio, na qual ele conta como fabricava cachaça antigamente – os garrafões envelheciam enterrados em um brejo – e todas as mudanças implementadas pela Tiê.

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