Histórias

A DAMA DOS CORDEIROS

No alto da Serra da Bocaina, Denise Victorio mantém uma pequena criação com padrão de primeiro mundo

Texto Flávia G. Pinho | Fotos Caio Ferrari

A paisagem lembra um cartão-postal europeu – nas encostas verdes ao redor da sede da fazenda, a 1100 metros de altitude, vêem-se dezenas de ovelhas branquinhas pastando tranquilas. O vento constante atenua o calor, mas não é suficiente para aquietá-las na parte mais quente do dia. Quando o sol está alto, no começo da tarde, o rebanho busca as sombras das árvores e ali permanece, até o momento em que a porteira se abre, às 16 horas, anunciando a hora da refeição no curral. Enfileiradas, elas correm em direção aos cochos, onde devoram quilos de ração e silagem e, finalmente, se acomodam para dormir.

 

A rotina se repete de domingo a domingo na Fazenda Real da Bocaina, comandada por Denise Victorio. Há dez anos, essa paulista de São Simão se aposentou e adquiriu a propriedade de 39 hectares no município de Silveiras, no Vale do Paraíba. Decidiu investir na ovinocultura de corte depois de fazer um curso e se apaixonar pelo tema. “Comprei um lote de 100 ovelhas e, com assessoria do Sebrae, aprendi tudo do zero. Tive consultoria de um agrônomo, um zootecnista e um veterinário, que me ensinaram a tocar a criação como deve ser”, ela conta.

Ovinos, afirma Denise, são muito delicados – especialmente os animais de raças lanadas, como os que ela escolheu. “Dão mais trabalho, mas a carne é bem mais saborosa”, garante a criadora. Por ano, cada fêmea tem apenas uma gestação, e a ninhada nunca passa de dois filhotes. Eles nascem com cerca de 4,5 quilos e ficam ao lado da mãe durante todo o primeiro mês. Depois disso, são mantidos em confinamento até o abate, que ocorre quando atingem entre 35 e 40 quilos. “Os filhotes não vão a pasto porque ovinos são muito vulneráveis a verminoses. No confinamento, longe do risco de ficar doentes, não precisam tomar medicamentos além da vacina, o que se reflete na qualidade da carne.”

Como não existe abatedouro especializado em ovinos na região, Denise precisa vencer grandes distâncias para abater seus animais – o serviço é executado pelo Clube do Cordeiro, em Itapira, ou pelo Cowpig, em Boituva. Ambos ficam a 350 km da fazenda. “Levo pequenos lotes em minha caminhonete, cuidando para que os cordeiros fiquem bem em todo o trajeto. Viajo em horários com pouco sol e dirijo devagar, de olho no retrovisor, para ver se algum está ofegante ou com sede. O bem-estar animal é fundamental para o padrão do meu produto.”

Os cortes definidos por Denise – pernil, paleta, picanha, filé-mignon, short rack, costela e lombo – saem dos abatedouros prontinhos e embalados a vácuo, com selo de inspeção estadual e a marca Real de Bragança. Congelados, são vendidos a pequenos restaurantes dos arredores – as entregas também são feitas pessoalmente por ela. São seus clientes assíduos o Entre Vilas, em São Bento do Sapucaí; o Picanha & Pasta, em Santo Antônio do Pinhal; o Quebra Cangalha e o Raízes Bistrô, ambos em Cunha; o Oui Paraty e o Bistrô Marriah, em Paraty. A criadora também aceita pedidos no varejo – encomendas pelo telefone (11) 99643-7643 ou pelo email devictorio@hotmail.com.  

A diferença em relação à maioria dos cortes de cordeiro vendidos em supermercados é evidente – bem clara, de coloração rosada, a carne de cordeiros abatidos precocemente tem sabor e aroma suaves. “Depois de 150 dias de vida, o animal já não pode mais ser considerado cordeiro. Tem muita gente vendendo ovinos mais velhos por aí como se fossem cordeiros. A carne é escura e tem gosto muito forte. Veio daí o hábito de servi-la com molho de hortelã, como uma tentativa de disfarçar o problema”, avisa Denise. “Quando o produto é bom, não precisa de molho. Bastam sal, ervas e grelha para ficar uma delícia.”

Para fazer uma visita virtual à Fazenda Real da Bocaina e conferir como os cordeiros são criados, acesse o vídeo do Cozinha.Doc no YouTube.

 

 

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